RESUMO
Este artigo analisa criticamente a afirmação popular segundo a qual Deus odeia o pecado mas ama o pecador. A investigação parte da tensão bíblica entre o amor santo de Deus e sua ira justa contra o pecado, examinando como a tradição reformada articula esses temas. Sustenta-se que a fórmula contém uma intenção pastoral legítima, mas é insuficiente quando transforma pecado e pecador em realidades completamente separáveis. A Escritura descreve a ira divina como dirigida contra o pecado praticado por pessoas culpadas, ao mesmo tempo em que afirma a bondade providencial de Deus para com suas criaturas e seu amor salvador eficaz para com os eleitos. A cruz de Cristo constitui o centro da síntese: nela, a justiça e a ira contra o pecado não são anuladas, mas satisfeitas pela obra substitutiva do Filho, em consonância com o amor do Pai. O resultado é uma compreensão que evita tanto o sentimentalismo, que reduz Deus a benevolência sem juízo, quanto o rigorismo, que fala da ira divina sem reconhecer a livre graça. Conclui-se que a frase deve ser qualificada à luz da totalidade do testemunho bíblico e usada apenas como porta de entrada para uma doutrina mais precisa de Deus, do pecado, da eleição e da redenção.
Palavras-chave: amor de Deus; ira divina; santidade; pecado; eleição; expiação.
1. INTRODUÇÃO
A afirmação Deus odeia o pecado mas ama o pecador tornou-se uma das fórmulas mais recorrentes da linguagem cristã contemporânea. Em muitos contextos, ela é empregada para comunicar que o juízo de Deus não deve ser confundido com desprezo pela pessoa humana e que a mensagem cristã oferece esperança ao culpado. A formulação, porém, costuma aparecer sem explicação de seus pressupostos e sem atenção às distinções bíblicas entre a bondade geral de Deus, sua disposição pactual, sua graça salvadora e sua ira judicial. O resultado é uma frase pastoralmente atraente, mas teologicamente ambígua.
O problema não está apenas na escolha das palavras, mas na concepção de Deus que pode ser construída a partir delas. Se a frase for interpretada como se Deus se relacionasse exclusivamente com o pecado abstrato e nunca com o pecador responsável, ela não corresponde ao modo como a Escritura descreve a ira divina. A Bíblia fala de pessoas que são objetos da ira por causa de sua rebelião, de sua culpa e de sua permanência no pecado (Jo 3.36Bíblia Livre Para Todos (BLT): Quem crê no Filho tem a vida eterna. Porém, quem se recusar a crer no Filho não terá a vida eterna, mas sofrerá o castigo de Deus.; Rm 1.18Bíblia Livre Para Todos (BLT): A hostilidade de Deus se revela do céu contra as pessoas que não creem e que não são moralmente justas, contra aqueles que escondem a verdade por meio do mal que praticam.; Ef 2.3Bíblia Livre Para Todos (BLT): Todos nós já fomos assim, com nosso comportamento sendo determinado pelos desejos da nossa natureza humana pecadora e do nosso modo maligno de pensar. Como qualquer outra pessoa, por causa dessa natureza, éramos pessoas que deveriam sofrer o castigo de Deus.). Por outro lado, se a frase for rejeitada de tal modo que se negue qualquer expressão real da bondade de Deus para com suas criaturas, também se perde uma parte importante do testemunho bíblico.
Este artigo propõe uma leitura bíblica e reformada da questão. Primeiro, examina o limite da fórmula popular; em seguida, relaciona amor, santidade e ira; depois, analisa a relação entre o pecado e o pecador, as diferentes manifestações do amor divino, a eleição e a obra de Cristo. A tese central é que o amor de Deus não é sentimentalismo oposto à santidade, e que sua ira não é paixão pecaminosa. Deus é um só e seus atributos não entram em conflito. Em Cristo, a justiça é satisfeita e o amor salvador é manifestado de maneira suprema.
2. O LIMITE DA FÓRMULA POPULAR
A fórmula popular apresenta uma intuição correta: Deus não é moralmente equivalente ao ser humano e não trata o mal com a mesma disposição desordenada que caracteriza a ira humana. Sua oposição ao pecado é santa, justa e coerente com sua própria natureza. Além disso, a Bíblia afirma que Deus demonstra bondade mesmo a pessoas que permanecem em rebelião, concedendo vida, sustento, ordem social e numerosos dons temporais (Mt 5.45Bíblia Livre Para Todos (BLT): assim, vocês se tornarão filhos do seu Pai celestial. Pois o seu sol brilha tanto sobre os bons quanto sobre os maus; e ele faz a chuva cair tanto sobre quem faz o que é certo quanto sobre quem faz o que é errado.; At 14.17Bíblia Livre Para Todos (BLT): Ainda assim, ele continua a dar provas da sua existência, fazendo boas ações. Ele envia a chuva do céu e faz com que as lavouras cresçam no tempo certo. É ele quem dá alimento a vocês e enche seus corações de alegria.). Nesse sentido, é legítimo dizer que a criatura pecadora ainda é alvo da benevolência divina.
A dificuldade surge quando a frase estabelece uma separação rígida entre o pecado e o pecador. O pecado não existe como uma entidade independente; ele é a transgressão cometida por agentes morais. A culpa pertence a pessoas concretas, e a ira de Deus se dirige contra a impiedade e contra os que a praticam. Em sua obra A difícil doutrina do amor de Deus, Carson observa que a linguagem bíblica não permite reduzir a ira divina a uma abstração chamada pecado, como se o pecador jamais estivesse sob juízo; ao mesmo tempo, a Bíblia também não permite negar que Deus sustenta e chama pessoas culpadas ao arrependimento (CARSON, 2007, p. 70-77). A frase, portanto, precisa ser entendida como uma simplificação pastoral, não como uma definição completa da relação de Deus com o ser humano.
Outra dificuldade consiste em tratar amor e ira como sentimentos mutuamente excludentes. Na Escritura, ambos podem ser afirmados no mesmo quadro histórico, embora sob aspectos diferentes. Deus pode manifestar bondade providencial ao ímpio e, simultaneamente, permanecer contrário à sua culpa; pode amar de modo salvador aqueles que ainda estão, em sua condição natural, sob condenação; e pode exercer juízo sem deixar de ser o Deus cuja bondade é perfeita. Carson identifica diferentes modalidades do amor divino, incluindo o amor intratrinitário, a bondade providencial, a disposição salvadora para com o mundo, o amor eletivo e o amor pactual que acompanha a obediência da aliança (CARSON, 2007, p. 17-25). Essa multiplicidade não divide Deus em partes, mas impede que uma única fórmula seja usada para apagar o conjunto do testemunho bíblico.
3. O AMOR SANTO DE DEUS
A doutrina cristã não começa definindo o amor a partir das emoções humanas e depois projetando essa definição em Deus. O amor divino deve ser compreendido à luz de todos os atributos revelados nas Escrituras. Em sua obra O conhecimento de Deus, Packer adverte que a declaração Deus é amor não pode ser isolada de afirmações igualmente centrais, como Deus é luz e Deus é justo. O amor de Deus não é indulgência sentimental, instabilidade emocional ou tolerância indiferente ao mal; é a ação livre e soberana de sua bondade, exercida de maneira perfeitamente coerente com sua santidade (PACKER, 2014, p. 106-114).
A santidade de Deus significa que ele é moralmente puro e incomparável, separado de todo mal e plenamente comprometido com sua própria glória. Por isso, o pecado não é apenas uma falha de desempenho ou uma imperfeição a ser tratada com condescendência. Ele é oposição ao Criador, violação de sua lei e desordem da criatura. Em Teologia sistemática, Berkhof relaciona a santidade divina à repulsa contra o pecado e à exigência de pureza moral, enquanto Bavinck, em Dogmática reformada: Deus e a criação, mostra que a santidade não é um atributo isolado, mas pertence à unidade do ser de Deus e se manifesta em todas as suas obras (BERKHOF, 2012, p. 95-97; BAVINCK, 2012, v. 2, p. 223-224).
A ira de Deus deve ser definida a partir dessa santidade. Ela não é explosão irracional, ressentimento ou perda de controle, mas a oposição pessoal, estável e justa de Deus ao pecado. Packer observa que a ira divina expressa o juízo do Deus santo contra tudo aquilo que contradiz seu caráter e sua lei (PACKER, 2014, p. 173-179). Carson acrescenta que enfraquecer a doutrina da ira significa reduzir a gravidade do pecado e obscurecer a santidade de Deus (CARSON, 2007, p. 70-73). A ira, nesse sentido, não é o contrário do amor; ela é o modo como a santidade reage ao mal e protege a bondade da criação.
Bavinck também rejeita a ideia de que o Antigo Testamento apresentaria um Deus de ira e o Novo Testamento um Deus de amor. Justiça, ira, bondade, graça e amor atravessam toda a revelação bíblica. O juízo não é uma anomalia que aparece quando o amor falha, e o amor não é uma suspensão da justiça. Ambos pertencem ao agir do Deus único, cuja justiça é santa e cuja graça é livre (BAVINCK, 2012, v. 2, p. 230-234).
4. PECADO E PECADOR
A tradição reformada descreve o pecado como uma realidade que alcança a pessoa inteira. Ele envolve culpa diante da lei, corrupção da natureza, inclinação desordenada da vontade e ruptura da comunhão com Deus. No volume O pecado e a salvação em Cristo, da Dogmática reformada, Bavinck destaca que o pecado não é algo meramente exterior ao ser humano, como se pudesse ser retirado sem que a própria pessoa estivesse comprometida; ele penetra a vida humana e afeta o indivíduo em sua totalidade (BAVINCK, 2012, v. 3, p. 82-83). Por isso, não é possível falar biblicamente de uma condenação do pecado que deixe o pecador moralmente neutro.
A Escritura afirma que os seres humanos são, por natureza, filhos da ira (Ef 2.3Bíblia Livre Para Todos (BLT): Todos nós já fomos assim, com nosso comportamento sendo determinado pelos desejos da nossa natureza humana pecadora e do nosso modo maligno de pensar. Como qualquer outra pessoa, por causa dessa natureza, éramos pessoas que deveriam sofrer o castigo de Deus.). Essa expressão não significa que o ser humano tenha deixado de ser criatura de Deus ou que não conserve qualquer vestígio da imagem divina. Significa que, em Adão e em seus próprios pecados, ele se encontra sob culpa e incapaz de produzir a reconciliação. Em Eleitos de Deus, Sproul enfatiza que a humanidade culpada não pode exigir misericórdia de Deus; justiça é o que a culpa requer, enquanto misericórdia é favor imerecido (SPROUL, 2002, p. 18-22). A distinção é decisiva para a compreensão reformada da graça.
Calvino oferece, em A instituição da religião cristã, uma formulação particularmente útil para lidar com a tensão. Ao tratar da reconciliação, ele afirma que Deus não começou a amar os seres humanos apenas depois que Cristo morreu, como se a cruz tivesse transformado um Deus anteriormente sem amor em um Deus benevolente. O amor divino antecede a reconciliação e provê o próprio Mediador. Ainda assim, enquanto a culpa permanece, a pessoa está sob a ira e necessita ser reconciliada. Em uma linguagem pastoral, Calvino explica que Deus odeia em nós aquilo que procede de nossa corrupção, mas ama aquilo que procede de sua criação; a obra de Cristo remove a inimizade e estabelece a paz (CALVINO, 2008, t. 1, II.xvi.2-4).
Essa distinção não deve ser usada para criar duas pessoas em Deus. O Pai não possui um amor oculto e o Filho uma disposição contrária. Também não se trata de dizer que Deus oscila emocionalmente entre amor e ódio. A mudança ocorre na relação jurídica e pactual do pecador com Deus, não no ser divino. Bavinck observa que a reconciliação objetiva em Cristo altera a condição do pecador diante de Deus, sem implicar alteração na natureza divina; a ira e o amor podem ser afirmados sem contradição quando se consideram culpa, graça e união com Cristo (BAVINCK, 2012, v. 3, p. 453-455).
5. AS DIFERENTES MANIFESTAÇÕES DO AMOR DIVINO
Uma das principais contribuições da teologia reformada para essa discussão é distinguir as formas pelas quais a Escritura descreve o amor de Deus. Há, em primeiro lugar, o amor eterno do Pai, do Filho e do Espírito Santo, fundamento da vida trinitária. Há, em segundo lugar, a bondade providencial, pela qual Deus sustenta todas as criaturas e concede benefícios a justos e injustos. Há ainda a disposição salvadora de Deus para com o mundo, expressa no envio do Filho e no chamado universal ao arrependimento. Finalmente, existe o amor eletivo e eficaz, pelo qual Deus escolhe, redime e conduz seu povo à perseverança (CARSON, 2007, p. 17-26).
Essas distinções impedem duas reduções opostas. De um lado, não se deve concluir que Deus ama todas as pessoas exatamente do mesmo modo em todos os sentidos. Se assim fosse, não haveria espaço para a linguagem bíblica da eleição, da adoção e do amor particular de Deus por seu povo. De outro lado, não se deve concluir que Deus não manifesta qualquer bondade real aos não eleitos. Sua providência, sua paciência e os benefícios temporais são reais, ainda que não equivalham à salvação. A afirmação de que todos são igualmente amados só é adequada se estiver limitada à bondade providencial; como descrição integral do amor divino, ela é insuficiente (CARSON, 2007, p. 23-25).
Packer descreve o amor de Deus pelos pecadores como livre, particular e eficaz. Ele não nasce de um mérito encontrado no ser humano, mas da decisão soberana de Deus de amar. Essa liberdade não significa arbitrariedade moral; significa que a graça não é uma dívida. O amor salvador inclui o propósito de conceder o Filho, perdoar a culpa, estabelecer comunhão e conduzir o pecador à santidade (PACKER, 2014, p. 111-114). Portanto, o amor divino não se limita a uma disposição afetiva genérica: ele realiza aquilo que promete.
A teologia reformada também preserva a seriedade das advertências bíblicas. O amor pactual não deve ser usado como licença para a desobediência. A Escritura chama os crentes a permanecerem no amor de Deus, a obedecerem a Cristo e a não tratarem a graça como autorização para o pecado. Carson ressalta que o caráter condicional de certas declarações da aliança não contradiz a eleição soberana; antes, descreve a forma histórica pela qual a comunhão pactual é vivida e preservada (CARSON, 2007, p. 19-25). O amor que salva também santifica.
6. ELEIÇÃO IRA E MISERICÓRDIA
A relação entre eleição e ira é uma das áreas em que frases populares produzem maior confusão. Antes da conversão, o eleito não é moralmente superior aos demais. Ele participa da mesma condição caída, está debaixo da culpa e necessita da mesma cruz. Efésios 2.3 descreve a condição natural dos crentes antes da graça como condição de ira, e a sequência do texto atribui a salvação à misericórdia de Deus. A eleição não significa que o escolhido possuía uma bondade prévia que despertou o amor divino; significa que a salvação tem origem na graça soberana.
Em Eleitos de Deus, Sproul mostra que a doutrina da eleição não torna Deus injusto. Se todos pecaram, ninguém pode reivindicar salvação como direito. Quando Deus concede misericórdia, ele não pratica injustiça com os demais; quando exerce justiça, não age com crueldade arbitrária. A pergunta reformada não é por que Deus não foi igualmente misericordioso com todos como se a misericórdia fosse uma obrigação, mas como Deus pode salvar culpados sem negar sua justiça (SPROUL, 2002, p. 88-98). Essa pergunta conduz diretamente à cruz.
A eleição também não autoriza linguagem desprovida de cuidado pastoral. Dizer que Deus ama seu povo de maneira eletiva não significa falar com desprezo dos que permanecem em incredulidade. A igreja anuncia o evangelho a todos, chama todos ao arrependimento e reconhece que a distinção entre os que creem e os que permanecem sob juízo não é produzida por superioridade humana. O eleito glorifica a graça precisamente porque sabe que foi salvo da mesma condenação que merecia.
É importante, portanto, manter juntas três afirmações: Deus é bom e providente para com suas criaturas; Deus permanece justamente irado contra a culpa não perdoada; Deus ama eficazmente aqueles que salva em Cristo. A tentativa de reduzir essas três verdades a uma única modalidade de amor produz uma caricatura. A unidade de Deus não elimina a diversidade de relações que ele estabelece com suas criaturas em sua providência, juízo e redenção.
7. A CRUZ COMO CENTRO DA SÍNTESE
A cruz de Cristo é o lugar em que a oposição entre amor e ira é desfeita sem que nenhum dos dois seja negado. Deus não salva ignorando o pecado, mas tratando-o judicialmente na obra substitutiva do Filho. A propiciação não é uma tentativa humana de persuadir um Deus relutante a ser amoroso. O próprio Deus provê o sacrifício e, ao mesmo tempo, demonstra sua justiça e seu amor. Packer observa que a obra de Cristo manifesta a iniciativa divina: o Pai entrega o Filho, o Filho se oferece voluntariamente e a salvação remove a culpa que colocava o pecador sob juízo (PACKER, 2014, p. 173-180).
Carson enfatiza que a cruz não deve ser descrita como se o Pai fosse um ser cruel que pune um terceiro inocente contra sua vontade. Pai e Filho agem em perfeita unidade na obra da redenção. O amor do Pai é justamente a razão pela qual o Filho é enviado; a obediência do Filho é a expressão de seu amor pelo Pai e pelo povo que veio salvar. A cruz é, portanto, simultaneamente demonstração da justiça divina, satisfação da ira santa e revelação do amor salvador (CARSON, 2007, p. 74-78).
Berkhof relaciona a expiação à remoção da culpa e à mudança da relação entre Deus e o pecador. Não é o ser de Deus que se transforma, mas a situação jurídica do culpado: a condenação é satisfeita, a inimizade é removida e a graça pode ser aplicada sem que a justiça seja negada (BERKHOF, 2012, p. 463-473, 481-494). Essa doutrina impede que a reconciliação seja compreendida como simples declaração de que o pecado não importa. O pecado importa tanto que foi necessária a morte do Filho de Deus.
Nesse sentido, a afirmação Deus ama o pecador só alcança seu significado cristão pleno quando é conectada à união com Cristo. Deus não ama o pecador salvadoramente ao deixá-lo em sua rebelião, mas ao chamá-lo, justificá-lo, regenerá-lo e conformá-lo ao Filho. A mesma graça que absolve também começa a destruir o domínio do pecado. O evangelho não comunica apenas aceitação emocional; comunica reconciliação objetiva e transformação real.
8. IMPLICAÇÕES PARA A PREGAÇÃO E PARA A VIDA CRISTÃ
A primeira implicação é que a igreja deve anunciar o caráter de Deus de maneira integral. Uma pregação que fala somente do amor produz sentimentalismo e não explica por que a cruz foi necessária. Uma pregação que fala somente da ira produz medo sem esperança e pode transformar a santidade em mero terror. O anúncio bíblico apresenta o Deus santo que julga o pecado e o Deus misericordioso que, em Cristo, oferece reconciliação ao culpado.
A segunda implicação é antropológica. O ser humano não precisa apenas de encorajamento para se sentir aceito; precisa de perdão, justificação e libertação do domínio do pecado. A mensagem cristã não pode tratar o mal como um problema externo ao coração humano. A doutrina do pecado chama cada pessoa ao arrependimento e impede que a linguagem do amor seja usada para confirmar a autonomia moral do pecador.
A terceira implicação é pastoral. O crente que compreende a ira santa de Deus percebe a grandeza da graça e não transforma a misericórdia em presunção. Ao mesmo tempo, aquele que foi reconciliado não vive em ansiedade diante de um Deus instável. A cruz garante que Deus é justo ao justificar o ímpio que crê e que seu amor salvador não depende da oscilação dos méritos humanos. A segurança cristã está na obra consumada de Cristo, não na capacidade do crente de produzir uma bondade que o torne digno.
A quarta implicação diz respeito ao relacionamento com o próximo. Se Deus demonstra bondade mesmo a pessoas que se opõem a ele, a igreja é chamada a praticar benevolência, paciência e verdade. Isso não significa chamar o mal de bem ou abandonar a disciplina moral. Significa rejeitar tanto o ódio pecaminoso quanto a tolerância que cancela a verdade. A santidade cristã deve unir firmeza contra o pecado e compaixão pelos pecadores.
9. CONCLUSÃO
A frase Deus odeia o pecado mas ama o pecador não deve ser tratada como uma formulação teológica completa. Ela contém uma intuição válida ao lembrar que a ira de Deus é santa e que sua bondade não desaparece diante da culpa humana. Entretanto, torna-se enganosa quando separa de maneira absoluta o pecado do pecador, como se a ira de Deus pudesse ser dirigida ao mal sem alcançar pessoas culpadas, ou como se amor e juízo fossem realidades incompatíveis.
A análise bíblica e reformada mostra que Deus é bom para com suas criaturas, manifesta paciência e benefícios temporais, chama os pecadores ao arrependimento e ama salvadoramente aqueles que elege em Cristo. Ao mesmo tempo, sua ira permanece contra a impiedade e contra a culpa não perdoada. Essas verdades não revelam contradição em Deus, porque não procedem de atributos concorrentes, mas do agir coerente do Deus santo, justo, bom e misericordioso.
A cruz é o ponto decisivo dessa doutrina. Nela, o amor não cancela a justiça, e a justiça não destrói o amor. Deus mesmo provê a satisfação pelo pecado e reconcilia consigo os que estavam sob sua ira. Por isso, a melhor resposta à pergunta não é repetir a fórmula de modo isolado, mas explicar seu conteúdo: Deus se opõe pessoalmente ao pecado e julga justamente o pecador culpado; contudo, em livre misericórdia, oferece em Cristo perdão, reconciliação e nova vida. O amor divino não é uma negação da santidade, mas sua expressão redentora em favor de pecadores.
REFERÊNCIAS
BAVINCK, Herman. Dogmática reformada: Deus e a criação. v. 2. Tradução Vagner Barbosa. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.
BAVINCK, Herman. Dogmática reformada: O pecado e a salvação em Cristo. v. 3. Tradução Vagner Barbosa. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.
BERKHOF, Louis. Teologia sistemática. Tradução Odayr Olivetti. 4. ed. rev. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.
CALVINO, João. A instituição da religião cristã. Tomo I: livros I e II. Tradução Carlos Eduardo de Oliveira et al. São Paulo: Editora UNESP, 2008.
CARSON, D. A. A difícil doutrina do amor de Deus. Tradução Degmar Ribas. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2007.
PACKER, J. I. O conhecimento de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 2014.
SPROUL, R. C. Eleitos de Deus: o retrato de um Deus amoroso que providencia salvação para seres humanos caídos. Tradução Gilberto Carvalho Cury. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.
